Legado

Vozes que resistem: 5 intelectuais negros que você precisa conhecer

Desafiando o apagamento histórico: 5 pensadores pretos que são referências

Vozes que resistem: 5 intelectuais negros que você precisa conhecer

Ainda nos dias atuais, a literatura e o conhecimento produzidos por intelectuais negros são invisibilizados e negligenciados. Mesmo sendo vários os nomes de pensadores negros atuando em diversas áreas do conhecimento, sua presença como referência em estudos acadêmicos ainda é escassa, resultado do racismo estrutural e da exclusão social. 

Façamos um exercício de reflexão:  você deve se recordar das aulas, seja no ensino básico ou superior, em que os professores e professoras citam os “grandes pensadores”, entre físicos, filósofos, historiadores e cientistas. Desses, quantos são negros? 

Pensando nisso, montamos uma lista com 5 intelectuais negros brasileiros que você precisa conhecer. 

Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de Jesus - Reprodução
Autora de Quarto de Despejo: Diário de uma favelada, Carolina nasceu em Minas Gerais e se mudou para São Paulo em 1947. Morou na Favela do Canindé, hoje um bairro na Zona Central da capital paulista. Depois se mudou para Santana e viveu seus últimos anos de vida em Parelheiros. 

Carolina teve três filhos. Sua filha mais nova, Vera Eunice de Jesus, atendeu a um pedido feito pela mãe e se tornou professora. Ela atua na preservação da história da mãe.
Sua principal obra, “Quarto de Despejo”, é um marco da literatura ainda hoje. Rompendo com os padrões, a obra apresentou a voz de quem não era ouvido e vivia às margens da sociedade. 

Com seus relatos escritos em cadernos que encontrava nos lixos, Carolina mostrou a realidade da fome, pobreza e exclusão social. O livro atingiu mais de um milhão de exemplares vendidos, feito até então inédito para uma mulher negra. Estima-se que tenha sido traduzido para 14 idiomas e publicado em mais de 40 países, tornando-se um poderoso documento histórico e social. 
Ela faleceu em 1977, aos 62 anos, vítima de uma insuficiência respiratória

“Quem inventou a fome são os que comem.”
- Carolina Maria de Jesus

Sueli Carneiro

Foto: Mario Ladeira
Filósofa, escritora e ativista, Sueli Carneiro é um dos principais nomes do feminismo negro e da luta antirracista. Formada pela Universidade de São Paulo (USP), Sueli retornou à universidade anos depois para defender sua tese de doutorado: “A construção do outro como não-ser como fundamento do ser”.

Em abril de 1988, ao lado de outras nove mulheres, fundou o Geledés - Instituto da Mulher Negra. A organização foi criada com o intuito de ser um espaço para denunciar o acesso desigual de mulheres pretas às oportunidades sociais, expondo as desvantagens e discriminações causadas pelo sexismo e racismo. 

Entre os livros dos quais é autora ou coautora, destacam-se “Mulher Negra: Política governamental” e “Dispositivo de racialidade: A construção do outro como não ser como fundamento do ser”. O primeiro, publicado em 1985, é considerado um estudo pioneiro sobre as desigualdades socioeconômicas entre mulheres negras e brancas. Já o segundo se trata da tese de doutorado de Sueli, que 18 anos após ser defendida, foi editada e publicada como livro. A obra aborda o racismo não apenas como um preconceito, mas como um sistema social e político que organiza a sociedade. 

“Ser mulher negra é experimentar essa condição de asfixia social”
- Sueli Carneiro

Kabengele Munanga

Foto: Pedro Seno
Nascido em 1942 na República Democrática do Congo, ele chegou ao Brasil em 1975. Graduado em Antropologia Cultural e Social pela Universidade Oficial do Congo, tornou-se o primeiro antropólogo formado no país. Concluiu o doutorado pela Universidade de São Paulo, onde também atuou como professor. 

Munanga foi pioneiro na desconstrução do mito da democracia racial brasileira e é considerado um dos principais defensores das cotas raciais brasileiras, que, segundo ele, servem para pacificar e corrigir distorções históricas. Em 2010, foi convidado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para debater a constitucionalidade das cotas, como um dos principais especialistas no assunto.

Suas contribuições teóricas deram suporte pedagógico para uma lei promulgada em 2003, que obriga o ensino de história e cultura de origem afro-brasileira e africana nas escolas. 

Entre mais de 100 publicações acadêmicas e 6 livros escritos integralmente por ele, destacam-se: “Rediscutindo a Mestiçagem no Brasil: Identidade Nacional Versus Identidade Negra”, uma obra que aborda o uso ideológico da miscigenação na cultura brasileira; e “Ritos de Passagem na África Central”, livro focado nas pesquisas de campo realizadas por ele no continente africano, com ênfase nas tradições e na cultura local. 

“Todo preconceito tem como matéria-prima as diferenças."
- Kabengele Munanga

Conceição Evaristo

Nascida em 1946, em Belo Horizonte, é formada em Letras pela UFRJ, mestre em literatura brasileira pela PUC-Rio e doutora em literatura comparada pela UFF. Trabalhou como empregada doméstica, babá, lavadeira e professora primária e da rede municipal. 

Foi a responsável por criar o conceito “escrevivência” (junção de escrever e vivência). O conceito é usado para definir uma literatura que nasce da experiência coletiva e individual da população negra, em especial das mulheres. 

Foto: Itaú Social
Conceição escreveu 8 livros autorais, sendo “Olhos d’água” o mais vendido. O livro é composto por 15 contos curtos que focam na realidade de mulheres e homens negros e marginalizados, expondo o racismo e machismo na sociedade brasileira, e servindo como denúncia social.

Em 2019, recebeu o Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano, em homenagem à sua contribuição literária e social. Em 2025, se tornou a primeira mulher negra homenageada de forma unânime pela UFMG, com o título de Doutora Honoris Causa. Recebeu o mesmo título também pela UFRJ e pela Unicamp, em 2026.

"O importante não é ser o primeiro ou primeira, o importante é abrir caminhos."
- Conceição Evaristo

Lélia Gonzalez

Foto: Luiz Duailibe Valdo Costa/Angelo Sá | Acervo Lélia Gonzales - IMELG
Nascida em Belo Horizonte, em 1935, graduou-se em História e Geografia e em Filosofia pela Universidade do Estado da Guanabara (atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ) e se especializou em Antropologia Política e Social na Universidade de São Paulo (USP).

Atuou como chefe do Departamento de Sociologia e Político da PUC-Rio, foi cofundadora do Movimento Negro Unificado (MNU), em 1978. Também foi cofundadora do IPCN (Instituto de Pesquisas das Culturas Negras). Foi responsável por fundar o Coletivo Nzinga, coletivo focado no feminismo sob o olhar da mulher negra.

Lugar de Negro” é uma das suas principais obras e aborda as lutas e a história do movimento negro. Entre as obras póstumas, podemos destacar algumas biografias, como “Lélia Gonzalez”, escrita por Alex Ratts e Flavia Rios; e “Lélia Gonzalez: Um retrato”, publicada em 2024 e escrita por Sueli Carneiro, outra grande intelectual citada anteriormente. Como forma de homenagem pela sua contribuição, ela recebeu o título Doutora Honoris Causa da UnB, em 2025, e da FURG, em 2026.

Lélia morreu no dia 10 de julho de 1994, aos 59 anos de idade, vítima de um infarto agudo do miocárdio. A filósofa e ativista deixou um legado revolucionário para as ciências sociais, para o feminismo negro e para o movimento antirracista, sendo reconhecida internacionalmente em discursos globais da ONU.

"A gente não nasce negro, a gente se torna negro.”
- Lélia Gonzalez