Nêgo Bispo: "Começo, meio e começo"
"Mesmo queimando nosso povo, não queimarão a ancestralidade": a luta pela vida quilombola
Deitado em uma rede dentro de um quarto da casa, Antônio Bispo dos Santos recita o fim de um poema de sua autoria: "Mesmo que queimem a escrita, não queimarão a oralidade. Mesmo que queimem os símbolos, não queimarão os significados. Mesmo queimando o nosso povo, não queimarão a ancestralidade."
A rede vai, vem e dissipa qualquer mal-jeito possível entre os membros dessa conversa.
A linha de conexão de São Paulo ao Piauí flui de uma só vez e busca respostas para um único questionamento: o que aconteceu com o Quilombo Caldeirão?
É um senhor negro, de barba branca, sotaque nordestino forte e criado nas raízes do saber quilombola. Nêgo Bispo vem de 1959, foi o primeiro membro de sua família a ser alfabetizado, mas suas palavras trazem consigo uma história de séculos atrás.
Ele afirma: “Só existe começo, meio e começo”. Questionado, ele diz mais uma vez, como uma verdade óbvia: "Só existe começo, meio e começo. Não sou eu que estou relatando. As vidas me contaram."
Ele tenta explicar com a linguagem da terra, como se explicasse a uma criança a agradecer quando recebe um presente. Ele diz que é como uma árvore plantada: ela nasce, cresce e dá fruto. Quando ele cai, o ciclo da natureza, com a água, o ar e os animais faz com que a semente se espalhe… tudo para que nasça uma nova árvore.
Como parte da vida no Quilombo Saco Curtume, em São João do Piauí, Nêgo Bispo relembra a passagem do tio, chamado Norberto. Conta que o homem chorou muito nos últimos dias de vida. Consternado, Nêgo perguntou ao tio o porquê chorava, já que tinha feito tantas coisas boas na vida.
Norberto respondeu: “Eu choro porque eu lhe ensinei tudo o que eu sabia, mas eu não sabia tudo o que eu queria lhe ensinar. Só que enquanto você ensina, para quem precisa, o que eu lhe ensinei, eu estarei vivo mesmo que estou enterrado. Mas enquanto você deixa de ensinar para quem precisa o que eu lhe ensinei, eu estarei morto mesmo que eu esteja andando. Então, a partir de hoje, a minha vida está nas suas mãos. Se você matar essa memória, você mata a nossa comunidade.”
Nêgo Bispo entendeu que a ancestralidade vive, se ele quiser que assim seja, por isso carrega nas mãos, na voz e na pele preta, já castigada pelo sol, os nomes daqueles que vieram antes dele.
Ele diz: “Então, tio Norberto foi o meu começo, eu sou o meio para tio Norberto, meu neto é o meio para mim e eu sou o começo para meu neto. E assim vai: geração vó, geração mãe, geração neto. Começo, meio e começo.”
Naquela manhã, Nêgo Bispo contou que o neto, Norberto Máximo, de 16 anos, entrou em casa dizendo “Vô, esse livro é foda!”. O menino leva o nome em homenagem ao tio da família e levava nas mãos o exemplar de “A terra dá, a terra quer”, obra de Nêgo Bispo, publicada em 2023, que recebe como título a típica frase de sua avó ancestralizada, a Mãe Joana – ou sua “Mestra”, como ele se refere.
O livro retrata o modo de vida quilombola a partir do olhar vivo de Nêgo, que mantém o tom tranquilo durante uma conversa inteira, quase como se dissesse: “Eu sou testemunha de cada palavra que sai da minha boca”.
A luz que entra pela janela ilumina o seu rosto negro e esclarece os seus pensamentos, que se viram sobre esse assunto. Ele retorna ao tópico inicial da conversa. Afinal, o que de fato aconteceu com o Quilombo Caldeirão?
Nêgo Bispo começa a contar que, em 1889, um ano após a Lei Áurea, um homem chamado José Lourenço e mais um grupo de pessoas veio da Paraíba em direção ao Crato, no Ceará. Eram sertanejos sem terra, sem emprego e sem lugar para morar ou para onde ir
Chegando lá, com a ajuda de um sacerdote chamado Padre Cícero, fez uma comunidade auto suficiente, que plantava sua própria comida, erguia o chão de terra cearense suas casas e distribuía toda a produção com base na necessidade: quem precisasse mais, receberia mais, quem precisasse menos, receberia menos.
Até 11 de maio de 1937, quando o Caldeirão da Santa Cruz do Deserto foi invadido e bombardeado pela Polícia Militar do Ceará e pelo Exército Brasileiro, sob ordens do governo Vargas. Centenas de sertanejos foram massacrados e os familiares e descendentes dos mortos nunca descobriram onde estão os corpos, pois as autoridades não informaram o local da vala comum onde as pessoas foram jogadas – na tentativa de que foram esquecidas.
Com a mão apoiada na cabeça grisalha, Nêgo Bispo conta: “Palmares, Canudos, Caldeirão, Pau de Colher… eles foram bombardeados pelo Estado por serem uma ameaça ao colonialismo”.
E ao citar essa palavra, ele se volta ao conceito que elaborou quando surgiu a lógica capitalista: “Assim como fiz com a gente, eu resolvi denominar os gestos e modos colonialistas e foi quando defendi o Contracolonialismo”.
Nêgo Bispo explica que o conceito é como um antídoto para o veneno. Não como uma teoria, mas como uma trajetória, uma prática, um modo de vida. O modo de vida do quilombo: “Quiseram ir contra o termo, porque já existia a ideia de decolonialidade. Mas eu não retiro o que escrevo. A decolonialidade cabe para quem luta para descolonizar os seus. Mas eu não fui colonizado, eu sou quilombola.”, afirma Nêgo Bispo.
O pensador explica que o plantio do alimento, o cuidado na lavoura e com os animais fazem parte da luta concreta do cotidiano contra o colonialismo.
Quando ele diz “A terra dá, a terra quer”, ele indica a vida cíclica e orgânica da natureza, muito mais do que a ideia de “preservação” disseminada pela lógica colonialista: “'A terra dá, a terra quer' quer dizer: se relacionacione com o meio ambiente. Preservar? O meio ambiente não precisa dos nossos cuidados, ele quem cuida de nós.”
O contracolonial repete o título do nome de seu livro, assim como sua Mestra dizia, e como seu neto, Norberto Máximo, disse naquela manhã.
Por enfrentar a produção do saber da sociedade colonizadora, Nêgo Bispo já negou receber um título de Doutor Honoris Causa da universidade. Ele se apresenta: “Meu nome é Antônio Bispo dos Santos, mas me chamam de Nêgo Bispo ou Velho Bispo… As pessoas me chamam da maneira que convém a elas e eu respondo da maneira que me convém. Eu não sou um pensador, não sou um escritor, não sou um poeta, apenas. Eu sou tudo isso dentro da luta contracolonialista”.
No vai-vem da rede de dentro de sua casa no Quilombo Saco Curtume, em São João do Piauí, Nêgo Bispo se faz entender que não se coloca um fim em uma comunidade quando ela é massacrada, nem após a passagem de um membro da família. Não existe fim quando o saber quilombola é repassado. Apenas começo, meio e começo.