Michael Jackson no Brasil: o videoclipe de “They don't care about us”
Como a canção de protesto do artista mostrou a realidade de um país
A canção de protesto “They don't care about us”, de Michael Jackson, foi uma das mais polêmicas de toda a sua carreira, não apenas por sua composição, mas também pelo videoclipe filmado no Brasil.
Tudo se iniciou quando o artista escreveu sua nova canção para o álbum "History", sobre a dor do preconceito e do ódio e como uma maneira de chamar a atenção para problemas sociais e políticos. Como grande entusiasta de filmes, ele contratou o diretor de cinema Spike Lee para dirigir um clipe para sua nova música. A ideia de gravar no Brasil partiu do próprio Lee, mas o que ele não esperava era uma longa batalha judicial e midiática com alguns governantes brasileiros.
Ronaldo Cezar Coelho, Secretário Estadual da Indústria, Comércio e Turismo do Rio, se opôs fortemente à vinda do cantor, alegando que a exposição da favela prejudicaria a imagem da cidade, uma das possíveis candidatas às Olimpíadas de 2004. Já a Secretária de Imprensa do Itamaraty, Vera Machado, defendeu que não se deveria esconder a realidade do país.
O juiz Luís Felipe da Silva Haddad concedeu uma liminar suspendendo as gravações, acatando pedido do advogado Jorge Béja, que alegava violação do direito de imagem dos moradores. Ele conseguiu apoio até do ministro dos Esportes na época, Edson Arantes do Nascimento, o jogador Pelé. “Ele pode ser o maior jogador de futebol do mundo, mas nem sempre é o melhor político”, respondia Spike Lee.
A advogada Diana Nunes Barroso, a pedido do vereador Antonio Pitanga, impetrou um mandado de segurança para cassar a proibição, alegando que a liminar feria o princípio da liberdade de expressão e seria prejudicial à imagem da cidade. No mesmo dia, o governador Marcello Alencar criticou duramente a "autoridade moral" de Michael Jackson para falar sobre pobreza e crianças carentes, mencionando denúncias de abuso infantil que o cantor teria sido acusado em 1993.
O juiz Haddad reduziu a suspensão do alvará para apenas cinco dias, permitindo que as filmagens ocorressem a partir da semana seguinte. O prefeito César Maia apoiou o evento, concedendo o alvará necessário. As gravações seguiram em Salvador, no Pelourinho, com o grupo Olodum, e no Rio de Janeiro, no morro Dona Marta. Spike Lee perguntou mais de uma vez porquê tamanho estardalhaço no Rio, uma vez que as filmagens em Salvador não tiveram tal repercussão.
A produção no Rio envolveu negociações com o tráfico local para garantir a segurança. Segundo o diretor do videoclipe, a empresa Skylight pagou traficantes para obter permissão de subir o morro. O líder do tráfico na época, Marcinho VP, pai do rapper Oruam, enviou uma camiseta para Spike Lee e garantiu que não haveria venda de drogas durante o período de gravações.
O chefe da Polícia Civil, Hélio Luz, chamou Spike Lee de "otário" por ter pago aos traficantes, afirmando que a polícia teria garantido a segurança se solicitada. Lee rebateu: “A polícia tem muito pouca autoridade lá. Acho isso normal, mesmo em Nova York temos que pagar para gravar em determinados lugares”.
Durante as filmagens no Dona Marta, Michael Jackson insistiu em filmar nos becos centrais para estar próximo aos moradores e recebeu um grupo de crianças e deficientes físicos em seu camarim improvisado antes de deixar a favela.
Anos depois, Michael teria sido homenageado em uma estátua no morro onde gravou o videoclipe, e no início deste ano Spike Lee postou, nas redes sociais, uma foto ao lado do monumento com a legenda: “Eles ainda não se importam com a gente”.
