Fanon se mantém presente como figura ativa no movimento negro mundial
"Pele Negra, Máscaras Brancas": O caminho para a desalienação do mundo branco e a luta pela liberdade negra
Em Pele Negra, Máscaras Brancas, de forma sensível, mas com rigidez acadêmica, Frantz Fanon afirma que o homem negro busca se desalienar do complexo de inferioridade interiorizado nele pelo pensamento colonialista. Escrito há mais de 70 anos, o livro defende ideais pelos quais o movimento negro busca alcançar ainda nos dias de hoje, mas desconsidera o quesito 'gênero' na discussão racial, excluindo as mulheres negras da análise que a obra propõe.
Publicado pela primeira vez em 1952, em Paris, o livro originalmente foi uma tese de psiquiatria desenvolvida pelo autor - e rejeitada pela academia. Uma obra que deu atenção à psiquê das pessoas negras e posteriormente aos impactos do racismo na subjetividade dos colonizados não poderia ser aceita pela brancura erudita do século XX.
Após anos de censura, o livro demorou décadas para ser amplamente difundido no Brasil e em outros países de língua portuguesa. A obra chegou a ter uma circulação proibida pelas autoridades do serviço secreto de Portugal por ser vista como uma crítica à “civilização ocidental” - e só foi traduzida no Brasil em 1983.
Diagnosticado com leucemia, Fanon morreu jovem, aos 36 anos, em 1961, e nunca conseguiu ver como a tese, inicialmente reprovada, se tornou referência na luta pela emancipação das pessoas negras.
Por meio de uma interpretação psicanalítica, Fanon, como homem negro, dá início ao primeiro capítulo dizendo que queria ser apenas “um homem entre outros homens”, mas se descobre “objeto em meio a outros objetos”. Isso porque o autor desenvolve o conceito da “zona do não-ser”, que entende que a existência do negro, que sobreviveu subordinado ao branco, não é descoberta pela sociedade que impõe máscaras brancas às pessoas negras como condição para que sejam minimamente humanizadas.
Assim, clamando pela desalienação desse pensamento, Fanon decide abraçar a “irmandade amarga” do povo negro: “Era ódio. Eu era odiado, detestado, desprezado, não pelo vizinho da frente ou pelo primo materno, mas por toda uma raça. [...] Minha negrura me atormentava, me perseguia. Já que era impossível que eu me desprendesse de um complexo inato, decidi-me afirmativamente como NEGRO”.
Assim mesmo, em caixa alta, Fanon firma a própria identidade e se coloca à frente da luta pela liberdade de “seus irmãos”.
Apesar das considerações fanonianas vestirem ainda hoje como uma luva nas mãos de uma sociedade que ainda reproduz os ideais da branquitude, o autor desconsiderou o conceito que hoje é chamado de “interseccionalidade”.
Apesar da disruptura inegável que seus escritos causaram no pensamento colonial, Frantz Fanon foca somente na experiência masculina do racismo, colocando o homem negro como universal, como consequência da “pessoa negra” - desconsiderando a perspectiva de gênero extremamente relevante para entender outras formas de opressão enraizadas na sociedade.
Um conceito cunhado pela professora norte-americana Kimberlé Crenshaw, em 1989, a “interseccionalidade” destaca que as identidades não são isoladas. E que a combinação de raças e gêneros - além de muitos fatores como a sexualidade - gera novas violências a serem enfrentadas por mulheres negras.
Escritoras brasileiras como Lélia Gonzalez e Neusa Santos Souza, apesar de dialogarem diretamente com os estudos fanonianos, são intelectuais que se dispuseram a colocar o feminismo negro no centro do debate, preenchendo essa lacuna que Fanon deixou durante suas considerações essenciais sobre as consequências psíquicas do racismo nas pessoas negras.
Ao desconsiderar fatores que condenam a 'existência' das mulheres negras, a autora assume uma posição de neutralidade, ou quase indiferença, quanto à denúncia do sexismo e do machismo nas lutas raciais. Felizmente, mais de 70 anos depois da publicação do livro, essa pauta não se encaixa mais no abstrato ou na invisibilidade: os avanços do feminismo negro, como movimento político e social, são factuais.
Como intelectual, ativista e psiquiatra, em Pele Negra, Máscaras Brancas , Fanon abre as portas para as próprias angústias individuais. Como parte de um diálogo com o leitor, o escritor convida “seus irmãos” a encontrar o caminho para a desalienação do mundo branco e afirma estar determinado a abraçar a profundidade e a plenitude da própria existência - apesar desse processo ser inegavelmente doloroso: “Descubro-me um dia no mundo e reconheço a mim mesmo um único direito: o de exigir do outro um comportamento humano. [...] Ó, meu corpo, faz de mim um homem que questiona!”.
Deivison Faustino é um dos principais pesquisadores brasileiros sobre a obra de Frantz Fanon. É sociólogo, professor da UNIFESP e autor de livros como "Frantz Fanon: um revolucionário, particularmente negro" (2018) e "Frantz Fanon: encruzilhadas teoria política e subjetividade" (2025).
Veja neste vídeo a introdução ao pensamento fanoniano por Deivison Faustino: