Homens Pretos (Não) Choram: sobre abrir espaço ao sentimento
Autoria: Gabriel Bertoli
Você já se perguntou quantos sentimentos um homem negro tem que ignorar para sobreviver?
Quantos choros ele tem que segurar, quantas demonstrações de afeto têm que ser anuladas ou quantos sentimentos têm que simplesmente deixar de existir?
Esse é o questionamento que o livro Homens Pretos (Não) Choram nos traz. Através de contos fictícios, mas inspirados em vivências reais, Stefano Volp nos convida a refletir sobre as vivências que um homem negro tem que superar e todos os sentimentos que somos forçados a engolir por conta da sociedade racista, machista e patriarcal em que vivemos.
É óbvio que os homens negros também se beneficiam de uma sociedade machista, mas também se ferem. O número de suicídios na sociedade brasileira se concentra nesse grupo, que não é convidado a lidar com seus sentimentos e aprender com suas vivências.
De forma sensível, Volp traz a perspectiva de como o homem negro deve sempre estar em processo de reconstrução. Nessa caminhada, ele deixa de ser tão duro consigo mesmo, abrindo espaço para as emoções. Todo tipo de emoção que toda pessoa deveria se sentir confortável de sentir, inclusive a tristeza… e o choro.
No conto “seco”, Heleno, personagem principal, é um idoso que se vê angustiado ao perceber que não consegue chorar. “Você se lembra da última vez que chorou?”, essa é a pergunta que ele faz ao próprio filho.
Já o conto “Pio” narra a história de um pai que a todo custo tenta compreender o porquê de o filho estar mudo. O autor levanta um debate sobre a importância do diálogo entre pais e filhos e sobre o tema da masculinidade tóxica e opressora que atinge crianças negras, especialmente meninos que crescem em ambientes que não validam seus sentimentos.
A carga emocional do livro é muito forte, com diálogos difíceis de ler, abordando muito da solidão que o homem negro vive quando não tem o direito de se emocionar e respeitar o que está sentindo. Homens Pretos (Não) Choram traz muitos questionamentos, visões e experiências, e pode somar para que todos compreendam um pouco mais o que se passa na mente de um homem negro.