As Malditas

As Malditas: Vivências de uma Travesti

Autoria: Vinícius Brunsizian

As Malditas: Vivências de uma Travesti

Sabe aquela narrativa que só vemos contada por olhares de fora, omitindo a perspectiva que mais deveria ser ouvida, que é a de quem vive aquela vida todos os dias?

As Malditas, da argentina Camila Sosa Villada, antigamente chamado de “O Parque das Irmãs Magníficas”, traz um relato duro sob o ponto de vista de um grupo de travestis que trabalhavam como prostitutas nas redondezas do Parque Sarmiento. 

Com uma escrita que te coloca dentro da história, Camila traz um realismo cheio de dor, violência e traumas carregados desde a infância, quando o pai alcoólatra dizia que se fosse travesti iria parar em uma vala, como se fosse um destino marcado desde cedo para a mulher presa em um corpo masculino e que já sofria com assédios de outros meninos no colégio. 

Sentimos o pânico junto com ela ao conhecer a sensação de perceber a violência antes mesmo dela acontecer. Mas também somos convidados a explorar um mundo místico e simultâneo criado pela autora, onde ela constrói metáforas para o desgaste físico e emocional do trabalho, ao mesmo tempo em que revela um lado mágico, e até espiritual de ser travesti

Em um trecho do livro, Camila diz que se aproximou muito mais da fé depois de ter se encontrada travesti, já que antes era impossível ter fé sem se sentir pertencida ao próprio corpo. Neste mundo místico que Camila constrói, também para escapar da realidade cruel, existe mulher que vira lobisomem em noite de lua cheia, mulher que aos poucos se transforma em pássaro, e Homens Sem Cabeça, vindos da guerra, que preferiram a companhia das travestis à de outras mulheres da cidade, por entenderem e simpatizarem com elas. 

E assim, em meio à essa vida solitária e repleta de ódio, dentro da casa de tia Encarna, a matriarca do grupo, conseguiam sim encontrar momentos de felicidade onde bebiam, festejavam, e se sentiam livres, protegidas do medo. 

“Você tem o direito de ser feliz”, dizia-nos Tia Encarna sentada na sua cadeira do quintal. “A possibilidade de ser feliz também existe”. 

Na escrita de Camila, os cenários viram personagens, o Parque ganha letra maiúscula quando é mencionado, e seu aspecto reflete o momento emocional do grupo, assim como a vegetação da casa de Tia Encarna. Além disso, o livro também explora questões sentimentais profundas, como a dor de Tia Encarna ao amamentar o filho através de suas lágrimas, já que não podia o fazer como outras mães, ainda que o amasse da mesma forma. 

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